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2003/07/22

Caros leitores,

Serve este para anunciar o fim deste blog, por motivos mais profissionais que pessoais (no fundo, trata-se de falta de tempo para tratar deste espaço como ele minimamente merece).
A todos os que visitaram o Surtos e com ele se divertiram, o meu agradecimento!!!

Espero poder um dia voltar...

2003/07/07

Um mártir dos nossos dias - Parte 3 (Final)

Rejeitado pela sociedade e também pelos outros, Wolfgang Detlev tenta o suicídio. Com uma corda no pescoço, pendura-se no candelabro da sala, mas apenas consegue ficar soterrado debaixo do candelabro, de alguns quilos de estuque e ainda de um sofá séc. XVII do vizinho de cima.

Durante a convalescença, tenta escrever as suas memórias, mas a tentativa sai-lhe frustrada, pois não se consegue recordar do nome da sua mãe.

Telefona para o pai a pedir ajuda; o pai também não se recorda, mas diz-lhe que pode colocar Ekbritt, porque soa bonito.

Desmoralizado, Wolfgang sente que o fim se aproxima, mas, numa última tentativa de escapar, fecha-lhe a porta.

Wolfgang Detlev viria a falecer alguns meses mais tarde, em virtude de uma pneumonia provocada por um Pêche Melba. Deixou-nos obras importantíssimas, que escrevera nos últimos dias da sua vida.
Entre elas salientamos apenas algumas como: “Tibete ou a levitação em recintos fechados”, “Saunas mistas – o delírio” e o relato da sua descida ao mundo das drogas “Mostra-me mas é esses bracinhos”.
Terminamos a história deste verdadeiro mártir dos nossos dias com o que foi a sua última frase, num momento de rara inspiração, antes de expirar:

- Long life to Popeye, the sailorman!!!


2003/07/04

Um mártir dos nossos dias - Parte 2

Wolfgang, profundamente afectado, fecha-se no seu quarto com uma crise de choro.

Alguns dias depois, o seu patrão telefona-lhe, pedindo-lhe para voltar, pois os outros empregados protestavam por não terem ninguém a quem massacrar.
Falavam mesmo em greves, com tons ameaçadores.
Wolfgang agradecera a estima que nutriam por ele, mas retorquira que estava deprimido e não podia voltar.

Wolfgang piorava de dia para dia.

Seu pai, Izmhir Detlev, ficara alarmado ao receber uma carta, onde Wolfgang lhe pedia autorização para desposar um peixinho amarelo de olhos telescópicos.
Izmhir Detlev recusou, alegando o facto de Wolfgang, agora sem emprego, não ter posses para comprar um aquário.

Wolfgang, completamente desesperado, tenta esquecer o homem do Beco Lütswige e inicia um romance com Olga Omalink, famosa fisioterapeuta que habitava no “guetto” de Tzärnstrasse. Olga Omalink, autora da famosa tese, publicada em braille, “Explosão Nuclear – Notícias do Além”, era uma mulher forte, opulenta, de seios rijos e ancas modeladas.

Wolfgang apaixonara-se por Olga Omalink e houve mesmo certas noites em que sairam juntos.
Olga, receosa de perder o seu primeiro amor, trazia Wolfgang preso por uma trela.
Uma noite Wolfgang envolveu-se numa briga com um pastor alemão e Olga desiste de usar a trela e passa a usar um cajado.

Este romance viria a terminar tragicamente, quando Wolfgang descobre que, também Olga, tinha incertezas quanto à sua existência (a sua, não a dela).

Wolfgang tentou ainda outro romance com uma bibliotecária, mas também este não resultou. Wolfgang não suportou a ideia de que, subitamente, ela se poderia transformar num Dicionário Larousse, velho e empoeirado.

Fracassado no amor, Wolfgang Detlev tenta o tratamento psíquico por electro-choques.
Ao fim do primeiro mês de tratamento, no entanto, é expulso da clínica psiquiátrica do Dr. Franz Statick, pois este descobre que Wolfgang utilizava luvas e sapatos de borracha durante os tratamentos.


2003/07/03

Sento-me ao largo da vossa indiferença, qual navio ancorado, de velas rasgadas pelo vento, no porto da minha imaginação.
E vós, sereias, serpenteais os vossos corpos por sobre as ondas. À vossa passagem o mar canta suaves hinos de sensualidade.
É então que parto, rumo a algo e, no entanto, para lado nenhum.


Um mártir dos nossos dias - Parte 1

UM MÁRTIR DOS NOSSOS DIAS


Wofgang Detlev repousava as pernas numa gaveta de um dos inúmeros arquivos do escritório onde trabalhava, na firma de enlatados de joelho de porco Haltschwein.
Wolfgang havia perdido as duas pernas num acidente entre dois carrinhos de supermercado, quando comprava compota de alperce e, desde então, utilizava duas pernas de pau de marmeleiro aplainadas, para se deslocar de casa para o emprego. Um amigo seu Thomirsch Zanta, levava-o de volta a casa no porta-mals do seu Volkswagen 1200.

Todas as manhãs, ao chegar ao escritório, Wolfgang retirava as pernas de pau e imediatamente se estatelava nochão. Os colegas de escritório riam disfarçadamente, mas, incitados por Thomirsch, gritavam em uníssono:

- Bem feito!!

Apesar de muitas noites de reflexão, sentado em casa, com uma faca de cozinha sempre à mão, Wolfgang nunca logrou resolver este seu problema.


Wolfgang Detlev era um indivíduo constantemente assaltado por incertezas sobre a sua própria existência. Algumas vezes era também assaltado por um homem careca e mal barbeado, no Beco Lütswige, na parte mal frequentada da cidade.
Wolfgang cultivara o gosto de passar por esse beco e fazia-o duas ou três vezes por mês, sendo sempre assaltado pelo mesmo homem. Ultimamente o homem já nem se dignava empunhar a habitual pistola e limitava-se a exclamar:

- Boa noite Sr, Detlev! Desta vez veio atrasado, hein??

Wolfgang sorria, com ternura, e entregava-lhe um envelope lacrado com duzentos ou trezentos marcos dentro. Mas, no fundo, ficava magoado com o facto de o homem já não usar a pistola.

Wolfgang começara por sentir prazer nesta sua relação com o mundo do crime, mas, mais tarde, o prazer deu lugar a um amor desenfreado. Conseguira mesmo convencer o homem a utilizar de novo a pistola e a fazer cara de mau.

Até que numa noite calma, demasiado calma, Wolfgang dirigira-se ao Beco Lütswige, cantarolando Brecht, como de costume, e verificara que o homem careca já não estava à sua espera, como era hábito.


2003/07/02

Louisiana 1848 - Parte 5

Toda a gente se virou para Sid Esgana-A-Mãe-E-Mais-Que-Venham. Com uma calma extrema ele enfiou a sua bota esquerda no interior da boca de Bisonte Vesgo que, prontamente, lhe dilacerou o membro inferior direito que, curiosamente, se encontrava dentro daquela. Sid pediu um copo de leite. Judas O Cruel, que se encontrava cortado em fatias finas, riu-se do pedido de Sid e de imediato Luke Bottles disparou à queima-roupa sobre Teófilo, o gato que morrera há quinze dias. Sid sorveu o copo de leite enquanto ia esfacelando Bisonte Vesgo com um martelo pneumático. O índio limitava-se a pedir cromos de jogadores de futebol. Jack Massacre sorria feito estúpido e Lucy, que havia descido da cave, tentava beijar o pianista. Infelizmente para o pianista ela beijou-o sem tirar o charuto da boca. Jack Massacre sorria feito esperto. Luke Bottles saiu de trás do balcão e disparou sobre o retrato do seu avô, ao mesmo tempo que balbuciava algo sobre o seu avô não lhe ter comprado um chupa-chupa quando ele era pequeno. O retrato do avô cuspiu na cara do neto e seguiu-se uma cena de pancadaria entre o gato Teófilo e o retrato do avô.

Jack Massacre contorceu-se na cadeira. A cadeira caiu. Entraram os irmãos Chartell: Roy, John, Ben, Jimmy e Thomas Chartell. Sid Esgana-A-Mãe-E-Mais-Que-Venham passa a mão pelo coldre e descobre que lho fanaram. Lucy “Oh Deus” sorri com o Colt 45 de Sid nas mãos. Sid, num momento de rara generosidade, convida-a para beber e manda vir dois copos de água com gelo. Roy Chartell tropeça no tapete e vai cair perto do pianista que, com uma rapidez incrível, lhe crava dois garfos ferrugentos, treze adagas marroquinas e seis saca-rolhas na orelha esquerda. Ben Chartell ao ver isto lança-se sobre o pianista e, de joelhos, pede-lhe que toque Chopin. O pianista, que detesta Chopin, fica furioso e corta a corda que segurava a coleção de bigornas de Luke Bottles, vindo estas a despenhar-se sobre o colo de Thomas Chartell que, não se aguentando à bronca, perfura o soalho e vai cair na cave, no quarto de Lucy “Oh Deus”, sendo de pronto engolido, ou antes, tragado por um pequeno Rottweiller de 93 quilos. Jack Massacre sorri. Sid senta-se na mesa de jogo com John e Jimmy Chartell. Falta o quarto jogador. Jack Massacre senta-se e o jogo principia. John Chartell faz “bluff” e Sid faz “plof”, pois Jack Massacre esmurra-lhe a facies.



2003/07/01

Relax

Depois de um almoço tardio (a minha filhota de 4 meses não me permitiu almoçar antes) o paraíso é poder sentar-me a fumar um cigarrinho e a saborear um Glenfiddich com uma pedrinha de gelo a derreter-se no meio...


Stress

Isto de trabalhar em casa é o que dá... adivinhem quem fica com a criancinha de 4 meses???
E quando ela está nos seus dias, nem a meditação tibetana me salva de um ataque de nervos...


Surtos dixit

Sei que o meu lugar no mundo é maldito, mas o que mais me atrai senão a minha própria maldição???


Kafka Dixit

- " A única coisa definitiva é o sofrimento"

- "Arte para o artista é só sofrimento, através do qual ele se liberta para novos sofrimentos"

- Não são eles, mas eu que estou numa jaula. Eu transporto as barras dentro de mim o tempo todo"


Louisiana 1848 - Parte 4

As portas abriram-se subitamente. A figura feroz de Bill Bode-Que-Foge-Não-Vai-Longe surgiu e todo o mundo tremeu. Escala 7 de Richter. Lucy “Oh Deus” subiu para o seu quarto na cave. Jack Massacre pediu outro whisky duplo ainda antes que Luke Bottles lhe trouxesse o que tinha pedido anteriormente.
Bill Bode-Que-Foge-Não-Vai-Longe ficou de pé junto do balcão e pediu uma Cuba Libre. Luck Bottles, furioso por se ter acabado rum, perguntou-lhe se não quereria antes uma omeleta. Bill disse que não e acabou por comprar um pacote de “Sugus” de toucinho. Foi neste preciso momento que entrou Bisonte Vesgo, chefe da tribo dos Apaches Gargarejantes, com duas flechas no pescoço. Os seus movimentos descontrolados não passaram despercebidos a Judas O Cruel, que prontamente lhe pegou fogo à roupa. Bisonte Vesgo, nitidamente aborrecido, pediu um copo de água. Luke Bottles recusou-se a servir índios e Bill Bode-Que-Foge-Não-Vai-Longe sobe para a cave. Lucy encontrava-se nua do pescoço para cima e Bill, excitado, engole o “abat-jour” e tenta acender uma garrafa de whisky que tinha um rótulo de creolina.
Lucy “Oh Deus” ouve um ruído no armário e pede a Bill para verificar. Bill abre a porta do armário e é mordido por sanguessugas esfaimadas, enquanto Jack Massacre, o quarto jogador, que estava também dentro do armário, lhe dispara para os dedos dos pés. Bill Bode-Que-Foge-Não-Vai-Longe consegue arrastar-se até à rua onde, exactamente nesse momento, passava a cavalo a tribo inteira dos Apaches Gargarejantes. Bill tentou escapar, mas Pete Sombrero empurrou-o para debaixo dos cavalos. Por puro acaso Pete prendeu a manga da sua camisa no coldre de Bill e foi também deliciar-se com a simpatia dos cascos. O pianista recompôs-se e estava a tocar Beethoven, quando Judas O Cruel, completamente nú, salta por cima do balcão, lançando-se em voo planante contra o espelho, tentando atacar a sua própria imagem. Luke Bottles, receoso que ele partisse o espelho, aplicou-lhe um pujante pontapé no estômago e, embrulhando-o em papel vegetal, passou-o pela máquina de cortar fiambre.
Repentinamente ouviu-se um ruído no exterior e entrou o temível pistoleiro Sid Esgana-A-Mãe-E-Mais-Que-Venham. Bisonte Vesgo, que acabara de beijar a poeira, olhou para Sid e disse:
- Foi ele!


2003/06/30

Meu Deus, como nós estamos mórbidos

Mesmo depois de mortos, há sempre alguém que nos receia;
por isso se inventou o caixão,
A última prisão...


E agora, para os que desesperavam ansiosamente (a minha mãe e um louco que não pára de me enviar mails) pela continuação da saga:

Louisiana 1848 - Parte 3

Numa das mesas do saloon, juntaram-se para uma partidinha de poker quatro mânfios recém-chegados.
Meia-hora depois, Godofredo Ananias jogava o seu destino naquela cartada.
Só tinha um trunfo e tinha que o jogar. O pior era tirá-lo da manga.
George Bate-Sacas e Pete Sombrero estavam de olho nos seus movimentos.
Godofredo tentou aproveitar-se do facto de Pete Sombrero ter as lentes de contacto embaciadas e de George Bate-Sacas ter a vista relativamente colada ao mamilo esquerdo de Lucy “Oh Deus”, a corista, para sacar o trunfo da manga.
Infelizmente Jack Massacre, o quarto jogador, viu esse delicado movimento e, emocionado pela franqueza de Godofredo, cravou-lhe um 45 (leia-se calibre) exactamente sob o maxilar inferior direito.
Godofredo pareceu não apreciar este gesto de ternura, pois, automaticamente, caiu no chão e não falou com ninguém durante o resto da noite.
O pianista, excitado, absorveu uma garrafa de creolina que por engano tinha um rótulo de Chivas Regal.
O efeito foi deveras curioso, pois o pianista, depois de recitar versos de Homero em jugoslavo, assumiu uma côr platinada e rolou sobre o teclado afirmando a pés juntos que era a Marylin Monroe.

Fez-se silêncio no saloon Boi Bravo.
Judas O Cruel tinha feito uma entrada fenomenal.
Em voo, depois de ter sido presenteado com um soberbo coice do seu cavalo.
Godofredo Ananias continuava prostrado no relvado.
O pianista, recomposto, voltou a passar as mãos pelo teclado.
Judas levantou-se e dirigiu-se à mesa de jogo. Sentou-se na posição de Godofredo, sob o olhar penetrante de Jack Massacre e George Bare-Sacas… Pete Sombrero não olhou, pois continuava com as lentes de contacto embaciadas.
Lucy “Oh Deus” tenta seduzir Pete Sombrero tirando um seio para for a e titilando o mamilo com o dedo.
Pete recupera os seus poderes visuais e ao ver Lucy principia a espumar da boca emitindo pequenos grunhidos em tirolês.
Jack Massacre pede um whisky duplo a Luke Bottles, o dono do bar.
Subitamente o candelabro solta-se do tecto, vindo a cravar-se nos ombros de George Bate-Sacas.
Judas esboçou um sorriso e o pianista caíu como uma folha morta (apenas diferindo no ruído), asfixiado pelo cheiro de refogado que o canino esquerdo de Judas emanava.

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